Wednesday, December 28, 2016

A crise da Teologia da Libertação.

Joseph Ratzinger - Papa Emérito Bento XVI.
Material para estudo.


Nos anos 1980, emergia a Teologia da Libertação nas suas formas mais radicais, como o mais urgente desafio à fé da Igreja, reclamando resposta e esclarecimento. Apresentava uma solução nova, e ao mesmo tempo plausível, à questão fundamental do cristianismo, a questão da salvação. A palavra libertação deveria exprimir, de modo diferente e mais compreensível, o mesmo que na linguagem tradicional da Igreja se chama salvação. Na realidade, é sempre o mesmo problema que jaz no fundo dessa questão: o mundo que nos rodeia não é de modo algum o que corresponderia a um Deus bom. Pobreza, opressão, tiranias de todos os tipos, sofrimento dos justos e dos inocentes são os sinais do nosso tempo, de todos os tempos. E é o indivíduo quem sofre. Ninguém se animaria a dizer a este mundo e à sua vida: continua assim, é tudo tão bom! A Teologia da Libertação respondia a essa experiência dizendo: essa insustentável situação só pode ser superada pela mudança radical das ESTRUTURAS DO MUNDO, que são estruturas de pecado, estruturas do mal. Se o pecado exerce seu poder sobre as estruturas e, a partir delas, programa a perpetuação da miséria, NÃO É PELA CONVERSÃO PESSOAL, mas SOMENTE MEDIANTE A LUTA CONTRA AS ESTRUTURAS INJUSTAS que se poderá superar essa situação. Contudo, essa luta - assim se dizia - precisa ser LUTA POLÍTICA, pois as estruturas se mantêm e consolidam por meio da política. Desse modo, A SALVAÇÃO TORNOU-SE UM PROCESSO POLÍTICO, PARA O QUAL A FILOSOFIA MARXISTA OFERECIA AS DIRETRIZES ESSENCIAIS. Tornou-se uma tarefa que o próprio homem podia realizar; mais ainda, devia realizar. A salvação consistiu, a partir de então, em uma esperança exclusivamente prática. A fé, assim, saía do âmbito da teoria para tornar-se práxis, ação concreta, redentora, pelo processo da LIBERTAÇÃO.

A derrocada dos sistemas europeus de governo baseados no MARXISMO foi para essa teologia da prática redentora uma espécie de crepúsculo dos deuses. Exatamente lá, ONDE A IDEOLOGIA MARXISTA DA LIBERTAÇÃO HAVIA SIDO APLICADA CONSEQUENTEMENTE, FOI ONDE SURGIU UMA RADICAL FALTA DE LIBERDADE, CUJOS HORRORES ERAM AGORA INDISFARÇÁVEIS, CLARAMENTE VISÍVEIS AOS OLHOS DO PÚBLICO MUNDIAL (NOTA. Mesmo que em outro momento, é possível reconhecer os mesmos "frutos" - podres - que o regime comuno-petista produziu no Brasil; regime erguido com a colaboração das fraudes da Teologia da Libertação e abalado com o impeachment recente de Dilma Rousseff). Quando a política pretende ser redentora, promete demais. QUANDO PRETENDE FAZER A OBRA DE DEUS, NÃO SE TORNA DIVINA, MAS DEMONÍACA. Os acontecimentos políticos de 1989 alteraram, por isso, também o cenário teológico. O marxismo fora, até aquele momento, a última tentativa de oferecer uma fórmula de validade universal à correta configuração da ação histórica. O marxismo pensava conhecer a estrutura da história universal e, por isso, achava-se capaz de indicar de que modo essa história deveria ser conduzida, sem recuos, ao seu final certo. Como estava APARENTEMENTE alicerçado em métodos estritamente científicos, ao substituir a fé pelo saber e ao transformar o saber em práxis, produziu um imenso fascínio. Todas as promessas não cumpridas das religiões pareciam agora realizáveis pela prática política cientificamente fundamentada. O desabamento dessa esperança tinha forçosamente de trazer consigo uma enorme decepção, que ainda está longe de ser assimilada. Por isso, parece-me perfeitamente concebível que NOVAS FORMAS DE CONSTRUÇÃO MARXISTA DO MUNDO VOLTEM A APARECER. Da primeira restou apenas perplexidade. O FRACASSO DO ÚNICO SISTEMA, CIENTIFICAMENTE FUNDAMENTADO, PARA SOLUCIONAR OS PROBLEMAS HUMANOS, SERVIU SÓ PARA JUSTIFICAR O NIILISMO OU, EM TODO CASO, O RELATIVISMO TOTAL.  

[...] Desde os anos 1950, a chamada TEOLOGIA PLURALISTA DAS RELIGIÕES desenvolveu-se gradativamente, porém agora JÁ SE INSTALOU NO CENTRO DA CONSCIÊNCIA CRISTÃ. Hoje ELA OCUPA APROXIMADAMENTE, pelo crescimento de sua problemática e pela presença nos diversos espaços culturais, A POSIÇÃO QUE NOS ANOS 1980 CORRESPONDIA À TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO. Além disso, ASSOCIA-SE MUITAS VEZES ESTREITAMENTE A ELA, PROCURANDO DAR-LHE UMA FORMA NOVA E MAIS ATUAL. Suas variantes são bastante diversificadas, não sendo possível encontrar uma fórmula breve que apresente o essencial em poucas palavras. Por um lado, ela é um produto típico do mundo ocidental e de seu pensamento filosófico, mas, por outro, ESTÁ EM CONTATO DE FORMA SURPREENDENTE COM AS INTUIÇÕES FILOSÓFICAS E RELIGIOSAS DA ÁSIA, em particular do subcontinente indiano. Precisamente o contato com esses dois mundos lhe confere um impulso especial no presente momento histórico.

[...] O ex-sacerdote católico, P. Knitter, vislumbrou isso claramente quando tentou superar, por meio de uma nova, concreta e mais substancial síntese entre Ásia e Europa, o vazio de uma teoria da religião, em última análise reduzida ao imperativo categórico. Sua proposta consiste em DAR À RELIGIÃO UMA NOVA FORMA CONCRETA, POR MEIO DA ASSOCIAÇÃO ENTRE A TEOLOGIA PLURALISTA DA RELIGIÃO E AS TEOLOGIAS DA LIBERTAÇÃO. Desse modo, o diálogo entre as religiões se simplificaria radicalmente e se tornaria mais eficaz, baseando-se em uma única premissa: a do primado da ortopráxis sobre a ortodoxia. Esse situar a práxis acima do conhecimento tem também muito da HERANÇA MARXISTA, se bem que o marxismo apenas concretize o que resulta logicamente da negação da metafísica: quando o conhecimento é impossível, resta só a ação. O absoluto, diz Knitter, não se pode conceber, mas se pode realizar. A questão é: DE QUE MODO? Como posso agir corretamente, se não sei o que é correto? O FRACASSO DOS REGIMES COMUNISTAS consistiu precisamente em ter querido mudar o mundo sem saber o que é ou não bom para ele, sem saber em que direção o mundo teria de ser mudado para ser melhor. A MERA PRÁXIS NÃO OFERECE NENHUMA LUZ.

[...] se a exigência da ortopráxis tiver sentido, sem ser APENAS O PRETEXTO PARA AS PESSOAS VIVEREM DESCOMPROMETIDAS, então tem de existir também uma práxis comum, reconhecível por todos e cada um, que se eleve por cima do palavreado geral do "centrado no eu" e "relacionar-se com o tu". Eliminando-se o sentido ritual, que existia na Ásia, a práxis pode então ser entendida no sentido (1) ÉTICO ou (2) POLÍTICO. No primeiro caso (ÉTICO), a ortopráxis pressuporia um "ethos" com conteúdo claramente definido. Mas isso fica claramente excluído na discussão ética relativista na que o bem em si e o mal em si não existem. Se entendermos ortopráxis no sentido POLÍTICO-SOCIAL, então ressurge a questão sobre O QUE É UMA AÇÃO POLÍTICA CORRETA. As TEOLOGIAS DA LIBERTAÇÃO, que viviam na certeza de que o MARXISMO diria claramente qual seria a práxis política correta, podiam empregar o conceito de ortopráxis com pleno sentido. Nesse caso, não se fomentava a falta de compromisso, mas uma forma de práxis correta, fixada para todos, ou seja, a verdadeira ortopráxis, que unia a comunidade e DIFERENCIAVA SEUS MEMBROS DAQUELES QUE SE NEGASSEM A AGIR CORRETAMENTE. Nisso, as Teologias da Libertação de orientação marxista eram, à sua maneira, lógicas e consequentes. Como se vê, ESSA ORTOPRÁXIS SE BASEIA EM CERTA ORTODOXIA (NO SENTIDO MODERNO): UMA ESTRUTURA DE TEORIAS VINCULATIVAS A RESPEITO DO CAMINHO PARA CONSEGUIRMOS A LIBERDADE. Knitter permanece próximo a esse enfoque quando diz que o critério para diferenciar entre ortopráxis e pseudo-práxis seria a LIBERDADE. Mas deveria nos ter explicado, de maneira prática e convincente, O QUE É LIBERDADE E COMO ELA CONTRIBUI PARA A VERDADEIRA LIBERTAÇÃO DOS HOMENS. A ORTOPRÁXIS MARXISTA CERTAMENTE NÃO CONTRIBUI; já vimos isso antes. Uma coisa, porém, está clara: AS TEORIAS RELATIVISTAS DESEMBOCAM GERALMENTE NO DESCOMPROMISSO, TORNANDO-SE, ASSIM, SUPÉRFLUAS, OU ACABAM ALEGANDO QUE NA PRÁXIS RESIDEM NORMAS ABSOLUTAS E, ENTÃO, IMPÕEM O ABSOLUTISMO, EXATAMENTE AONDE NINGUÉM QUERIA CHEGAR. É um fato que hoje, também na Ásia, cada vez mais se oferecem concepções da Teologia da Libertação como se fossem formas de cristianismo mais adequadas ao espírito asiático, TRANSFERINDO ASSIM O CERNE DA AÇÃO RELIGIOSA AO ÂMBITO POLÍTICO. ONDE O MISTÉRIO JÁ NÃO CONTA, A POLÍTICA SE CONVERTE EM RELIGIÃO. Sem dúvida, isso se opõe profundamente à compreensão original que a Ásia tinha a respeito da religião.   

[...] Juntamente a essas soluções radicais e ao GRANDE PRAGMATISMO DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, existe também o PRAGMATISMO CINZA DO COTIDIANO ECLESIAL, em que TUDO PARECE SER CORRETO, MAS A FÉ VAI-SE CONSUMINDO E ACABA SE AFUNDANDO NA MESQUINHEZ. Penso em dois fenômenos que observo com preocupação. (1) Em primeiro lugar, vai-se impondo, em graus de intensidade variáveis, a TENTATIVA DE ESTENDER O PRINCÍPIO DA MAIORIA À FÉ E À MORAL, ou seja, O PROJETO DE "DEMOCRATIZAR" DECIDIDAMENTE A IGREJA. Essa tentativa se expressa da seguinte maneira: o que não parece evidente à maioria, não se pode impor como obrigatório. Mas, de que maioria se trata? Não haverá amanhã outra, diferente da de hoje? UMA FÉ QUE NÓS MESMOS PODEMOS ESTABELECER NÃO É FÉ. E não existe nenhuma razão para deixar que uma minoria permita que a sua fé lhe seja prescrita por uma maioria. A FÉ, E A SUA PRÁXIS, OU NOS VEM DO SENHOR POR MEIO DA IGREJA E SEUS MINISTÉRIOS SACRAMENTAIS OU NÃO EXISTE. Na maioria dos casos, o afastamento da fé acontece por lhes parecer que, se pudesse ser fixada por qualquer instância, a fé equivaleria a uma espécie de PROGRAMA DE PARTIDO: QUEM ESTIVESSE COM O PODER, DETERMINARIA O QUE SE DEVE CRER. Por isso, O QUE INTERESSA HOJE É CHEGAR A POSSUIR PODER NA IGREJA. Dito de uma maneira mais lógica e evidente: O QUE INTERESSA MESMO É NÃO CRER.

(2) O outro ponto para o qual quero chamar a atenção diz respeito à LITURGIA. As diversas fases da reforma litúrgica levaram à OPINIÃO DE QUE A LITURGIA PODERIA SER MUDADA À VONTADE. Se houvesse algo imutável, quando muito seriam as palavras da consagração, tudo o mais podendo ser feito de outro modo. O pensamento que então se segue é lógico: se uma autoridade central pode fazê-lo, POR QUE NÃO A LOCAL? E se a instância local pode, POR QUE NÃO A PARÓQUIA? Afinal, é ela que deveria se expressar e reencontrar na liturgia. Depois das tendências racionalistas e puritanas dos anos 1970, e também dos 1980, estamos cansados de uma simples liturgia de palavras e desejamos uma liturgia mais vivencial, que rapidamente se aproxima das tendências da "New Age": procura-se a embriaguez e o êxtase, NÃO A "racionabilis oblatio" (o culto divino conforme a razão e o "logos"), DE QUE FALA PAULO E A LITURGIA ROMANA (ROM., 12, 1). 

[...] Estamos assim, de modo geral, perante uma situação estranha: a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO procurou dar ao cristianismo, cansado dos dogmas, uma nova práxis por meio da qual a redenção seria finalmente alcançada. Porém, ESSA PRÁXIS DEIXOU ATRÁS DELA A DESTRUIÇÃO EM VEZ DE TRAZER A LIBERDADE. Assim, restou-nos o RELATIVISMO e a possibilidade de arranjar-se com este. MAS O QUE O RELATIVISMO OFERECE É, POR SUA VEZ, TÃO VAZIO QUE AS TEORIAS RELATIVISTAS PROCURAM AJUDA NA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, a fim de se tornarem exequíveis. A "NEW AGE" diz, finalmente, que devemos deixar a experiência fracassada do cristianismo e VOLTAR PARA OS DEUSES, pois assim viveremos melhor. 

[...] Se considerarmos a presente constelação da história das idéias, da qual procurei dar algumas indicações, parece um milagre que, apesar de tudo, ainda se creia como cristão, com a fé plena e serena do Novo Testamento, DA IGREJA DE TODOS OS TEMPOS, e não simplesmente nas formas sucedâneas de Hick, Knitter e outros mais. Por que a fé continua sendo ainda uma oportunidade? Eu diria: porque ela corresponde à natureza do homem. Pois o homem tem dimensões mais amplas do que as que quiseram ver e admitir Kant e as diversas filosofias pós-kantianas. O próprio Kant teve de aceitá-lo, de alguma maneira, nos seus postulados. No homem vive indelével o anseio do infinito. Nenhuma das respostas dadas foi suficiente: apenas o Deus que se fez a si mesmo finito, para romper a nossa finitude e nos conduzir à imensidade da sua infinitude, responde ao questionamento do nosso ser. Por isso, hoje, a fé cristã recuperará o homem. A nossa missão é servir a Deus com ânimo humilde, com toda a força do nosso coração e do nosso entendimento.


(*) Texto extraído de RATZINGER, Joseph. "Fé, Verdade, Tolerância": O Cristianismo e as grandes religiões do mundo. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência "Raimundo Lúlio": São Paulo, 2013. pp. 109-110; 112; 118-119; 121-122; 122-123; 128. Os destaques e a "NOTA" entre parênteses são meus, Bruno Braga.


ARTIGOS RECOMENDADOS.

PACEPA, Ion Mihai. "A KGB criou a Teologia da Libertação" [http://b-braga.blogspot.com.br/2015/01/a-kgb-criou-teologia-da-libertacao.html]. Tradução do Capítulo "Liberation Theology" (15), que é parte do livro "Disinformation": former spy chief reveals secret strategis for undermining freedom, attacking religion, and promoting terrorism (WND Books: Washington, 2013). 

______. "As raízes secretas da teologia da libertação". Trad. Ricardo R. Hashimoto. Mídia Sem Máscara, 11 de Maio de 2015 [http://www.midiasemmascara.org/artigos/desinformacao/15820-2015-05-11-05-32-01.html].

______. "A Cruzada religiosa do Kremlin". Trad. Bruno Braga [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/04/a-cruzada-religiosa-do-kremlin.html].

. "Ex-espião da União Soviética: Nós criamos a Teologia da Libertação", ACIDigital, 11 de Maio de 2015 [http://www.acidigital.com/noticias/ex-espiao-da-uniao-sovietica-nos-criamos-a-teologia-da-libertacao-28919/].

Departamento de Estado dos Estados Unidos. Washington. D.C. "Ações ativas soviéticas: The Christian Peace Conference".  Trad. Bruno Braga. [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/07/christian-peace-conference-disseminacao.html].

NORRIS, Brian. "Crítica do "Christian Peace Conference". Trad. Bruno Braga [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/07/critica-do-christian-peace-conference.html].

BRAGA, Bruno. "Notas sobre a Teologia da Libertação" [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/05/notas-sobre-teologia-da-libertacao.html].