Sunday, February 19, 2012

Paraísos artificiais.

Bruno Braga.


A faculdade humana de abstração possui a propriedade de reproduzir a realidade experienciada em um estofo distinto da sensibilidade, em conceitos. O resultado deste trabalho precisa preservar sua referência à própria realidade de onde ele se originou e à qual está associado - caso contrário, a teia de conceitos se distancia do mundo concreto, e aquele que nela se apoia se perde na “alienação” de um mundo puramente “ideal”.

Em alguns momentos da história, e dentro dos principais campos do conhecimento, esta “desorientação” foi denunciada – por exemplo: na Ciência, com a polêmica mecanicista; na Filosofia, com as abstrações de Hegel; e até mesmo no domínio da Religião, com a discussão sobre os universais. Para evitar o rompimento definitivo com a realidade, o recurso seria fazer “o caminho de volta” – não afastar os conceitos, nem rebaixar a abstração, mas, sim, remetê-los, novamente, ao que lhe dá fundamento, à experiência efetiva. Este procedimento fica claro com uma ilustração no domínio da Religião – a orientação para a “conversão”: estudar antes a vida dos santos que a própria Bíblia; porque, assim, a pessoa conhece diretamente uma existência real e concreta, como a sua mesma, em uma amplitude que envolve os momentos de virtude e também os de perversidade, mesquinhez, conflito, contradições, fraquezas. Deste modo tornar-se-ia evidente a tensão inafastável da vida, e, por isso, a existência religiosa não fica reduzida à negação do mundo, e nem a um louvor alucinado a Deus, mas abarcaria a luta contra as dificuldades inerentes à própria existência, impostas pelos obstáculos e fatalidades externos, ou pela própria carne – afinal, “não é acaso uma luta a vida do homem sobre a Terra?” [1].

O “caminho de volta” seria uma sugestão pertinente também para os debates públicos. É o caso da discussão sobre as drogas, porque a vertente que batalha pela discriminalização ou legalização delas construiu um discurso permeado de abstrações como “direitos”, “liberdade de escolha”, “novas formas de experiências e de prazeres”. Mas, qual a referência real e concreta destas abstrações?

Entre inúmeros outros, dois testemunhos podem contribuir para a compreensão do problema: os de Christiane F. e o de Jim Carroll [2] - que mergulharam profundamente na experiência com as drogas e viveram, de fato, todas as consequências do vício: não apenas a dependência, mas a prostituição, a degradação física e moral. 

O que a droga fez com estas, e milhares de outras, vidas não é uma questão conceitual – uma justificação de teses e teorias – mas é o resultado concreto da experiência com entorpecentes. Definitivamente, o “paraíso conceitual” é o melhor dos mundos – porém, o mundo real e concreto é de uma brutalidade, de uma crueldade, impiedosas, que destroem qualquer “mundo ideal”. No caso das drogas a discussão pública está ameaçada por este distanciamento, tão alienante quanto a experiência profunda com os entorpecentes: algo que é sintomático, não para as pessoas em geral, que vivem a realidade efetiva, e que se opõem massiçamente à legalização e à discriminalização [3]; mas que denuncia, sim, o estado da intelectualidade, que molda os debates a partir de suas doces e encantadoras abstrações.  


Referências.

[1]. Jó 7, 1.

[2]. Para uma compreensão efetiva é indispensável assistir aos filmes: “Eu, Christiane F.”. Direção: Uli Edel, 1981; e “Diário de um Adolescente” (“The Basketball Diaries”). Direção: Scott Kalvert, 1995.

[3]. Cf. BRAGA, Bruno. "Eles falam em nome de quem?" [http://b-braga.blogspot.com.br/2012/02/normal-0-21-false-false-false-pt-br-x.html].

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