Monday, November 12, 2012

O bem-aventurado Alípio.



Bruno Braga.


Como a “Comissão da Verdade” decidiu redigir a sua própria Hagiografia – uma Hagiografia da inversão [1] -, seria louvável que ela dedicasse ao bem-aventurado Alípio de Freitas um lugar no seu altar. Uma glória para o padre que abandonou a Igreja Católica e viveu a santidade do sacerdócio revolucionário. Entre as suas benditas obras está a autoria intelectual do atentado a bomba no Aeroporto de Guararapes em 1966, no Recife.

Durante anos o autor desta obra de piedade e comiseração permaneceu desconhecido. O bem-aventurado Alípio, certamente, imbuído do espírito da renúncia, não a assumiu para evitar que o reconhecimento público excitasse a sua vaidade - o que macularia o ato de tamanha virtude. No entanto, o comunista Jacob Gorender acabou revelando o mentor do gesto de generosidade, que a Hagiografia da inversão consagra com a insígnia de “redemocratização”:

Membro da comissão militar dirigente nacional da AP, Alípio de Freitas encontrava-se em Recife em meados de 1966, quando se anunciou a visita do general Costa e Silva, em campanha farsesca de candidato presidencial pelo partido governista Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Por conta própria Alípio decidiu promover uma aplicação realista dos ensinamentos sobre a técnica de atentados (GORENDER, “Combate nas trevas”) (o destaque é meu).

O executor da ideia iluminada do sacerdote revolucionário foi um militante da AP (Ação Popular), que posteriormente transferiu-se para outra organização terrorista, a VAR-Palmares – o grupo do qual participou “Estela”, quer dizer, “Luíza”, ou melhor, “Patrícia”, “Wanda”, enfim, Dilma Rousseff.

O alvo do atentado no Aeroporto de Guararapes era o Marechal Costa e Silva. Uma bomba – acomodada em uma mala – foi plantada no saguão para fulminá-lo. O público aguardava para receber a autoridade. Porém, os alto-falantes do local anunciaram que, por causa de um problema técnico no avião, o Marechal faria o percurso de automóvel. Assim, as pessoas que o aguardavam começaram a deixar o Aeroporto – foi o que evitou uma tragédia ainda maior. Porque, logo depois de ser encontrada como um objeto perdido, a mala explodiu. Duas pessoas morreram e outras tantas ficaram feridas – amputações, lesões graves, queimaduras. A imolação macabra – quer dizer, “sagrada” na Hagiografia da inversão – pretendida pelo bem-aventurado Alípio foi assim consumada:











Mas, este não é o único legado do sacerdote da revolução. O Brasil deve louvar o bem-aventurado Alípio porque, graças a ele, o país tem duas congregações que o engrandecem: o Comando Vermelho e o PCC (Primeiro Comando da Capital). Quando esteve no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, Alípio ministrou lições sapienciais aos presos comuns – técnicas de organização e de guerrilha. Deste grupo – que faria do “Oratório” de São Filipe Neri um perverso conciliábulo – foi fundada a “Falange Vermelha”. Porém, como o termo “falange” fazia remissão ao fascismo, era necessário estabelecer uma denominação que não deixasse dúvidas sobre a dignidade e nobreza da organização: “Comando Vermelho”. Como os presos de São Paulo conviviam com os do Rio de Janeiro, os frutos foram multiplicados posteriormente: em 1993 foi fundado o PCC (Primeiro Comando da Capital).

O bem-aventurado Alípio não passou pelas provações do deserto para realizar esta obra irrepreensível. Ele retirou para Cuba, onde, em 1961, realizou treinamento em guerrilha – além de meditar em Moscou, em 1962, no Congresso Mundial da Paz. Fatos que corroboram a iluminação espiritual de Alípio, pois ele se dedicou à “redemocratização” – inclusive atuando nas Ligas Camponesas - antes mesmo do maligno Regime Militar. Um espírito que se libertou dos grilhões da Igreja Católica para, enfim, se dedicar inteiramente ao sacerdócio da Revolução: o bem-aventurado Alípio foi um precursor da Teologia da Libertação, à qual se associou.

Por toda esta vida de renúncia, santidade e devoção – que inclui atentado terrorista, treinamento guerrilheiro, criação de organizações criminosas -, o bem-aventurado Alípio merece um lugar no altar da inversão, que será erguido pela “Comissão da Verdade”. E se os brasileiros ainda não se ajoelharam diante dele, pelo menos deram a Alípio a modesta contribuição de 700 mil reais [2], e recolhem para ele um dízimo de 6 mil mensais. Eis o bem-aventurado Alípio, que a “Comissão da Verdade” deve louvar na sua Hagiografia da inversão.      


Referências.

[1]. BRAGA, Bruno. “Hagiografia da inversão” [http://b-braga.blogspot.com.br/2012/11/hagiografia-da-inversao.html].

[2]. O colunista Cláudio Humberto afirma que a generosidade é maior, 1,09 milhão.

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