Thursday, March 07, 2013

A religiosidade, entre a Fé e a Razão.


Bruno Braga.



O historiador inglês Paul Johnson assinala a contribuição de Sócrates para a recepção do Cristianismo. O filósofo ateniense não elaborou uma “doutrina”, não deixou um só escrito. Porém, as narrativas sobre a sua vida tornaram-se conhecidas. Operadas através das obras de Platão e de Aristóteles, as considerações de Sócrates a respeito da vida e da morte, sobre o corpo e a alma, foram disseminadas pelo mundo grego. Assim, quando Paulo pregou os ensinamentos de Jesus Cristo, encontrou um público apto a tratar de determinadas questões [1].

Joseph Ratzinger – agora Papa Emérito Bento XVI (ou “Bispo emérito de Roma”) – estabelece uma relação entre a Filosofia e o Cristianismo semelhante à de Paul Johnson. No livro “Introdução ao Cristianismo” [2], Ratzinger observa a existência de um paralelo temporal e real entre a crítica filosófica dos mitos na Grécia e a crítica profética dos deuses em Israel [3].

Sócrates, como sublinha Paul Johnson, já indica um deus único em meio aos deuses cultuados na Grécia [4]. Ratzinger, por sua vez, observa neste contexto um movimento do “Logos” contra o “Mito”, que expressa o processo de esclarecimento da própria mentalidade grega – um processo de depuração que alcança a ideia de “Ser” e estabelece a unidade que fundamenta a multiplicidade.

Em um mundo repleto de deuses, Moisés afirma o Deus único. Sua afirmação implica a renúncia de todos os outros deuses: de “Baal” e de “Moloch”, e com eles a renúncia de cultos com ligações locais, da divinização dos poderes políticos em favor de um Deus próximo que pode se tornar o Deus de cada pessoa – é uma opção existencial. E quando Moisés pergunta ao próprio Deus o seu nome, Ele responde: “Eu sou aquele que é” [5]. O “eu sou” como aquele que “é” estabelece a “presença” e a “duração” – é o “Ser” que se contrapõe ao “devir”, o permanente e existente em oposição ao transitório e à corrupção [6].

O esclarecimento posterior da literatura profética – sobretudo com Ezequiel e Deutero-Isaías [7] – e sapiencial promove a desmitização dos poderes idolátricos em favor do Deus único, e converge com o movimento do esclarecimento filosófico grego no “Logos”, apesar de partirem de hipóteses diversas e visarem metas distintas. Esta é a articulação entre a Fé e a Filosofia, a busca da unidade entre “Fé e Razão”.

A primazia do “Logos”, porém, não implica o desprezo da vida e do mundo. Porque o sentido que sustenta todo o ser tornou-se carne, isto é, penetrou na história tornando-se alguém nela. Ele não é mais apenas quem envolve e carrega a História – o “Ser” entre a multiplicidade e o transitório -, mas é um ponto dentro dela. Em Jesus Cristo realiza-se a união do “Logos” e da “Carne” (“Sarx”), de razão ou sentido e figura individual da história. Assim, o sentido de todo ser, aponta Ratzinger, “não mais poderia ser encontrado, de agora em diante, na intuição do espírito a elevar-se acima do individual e limitado, até alcançar o geral; não mais existiria simplesmente no mundo das ideias a ultrapassar o particular, refletindo-se aí apenas fragmentariamente; deveria ser encontrado imerso no tempo, no rosto de um homem” [9]. 

As observações de Paul Johnson e de Joseph Ratzinger são absolutamente pertinentes. Não apenas do ponto de vista da pesquisa histórica – ou sob a perspectiva da teologia católica, para o fiel. Elas fornecem uma oportunidade para superar o abismo entre a Fé e a Razão aberto pela modernidade, e resgatar um dos produtos da cultura contemporânea, o degradado conceito de religiosidade.  


Referências.

[1]. BRAGA, Bruno. “A magnitude de Sócrates, por Paul Johnson” [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/03/a-magnitude-de-socrates-por-paul-johnson.html].

[2]. RATZINGER, Joseph. “Introdução ao Cristianismo”: Preleções sobre o Símbolo Apostólico. Editora Herder: São Paulo, 1970. Para fazer o download do livro em formato PDF, acesse o link: [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/02/o-legado-bento-xvi.html].

[3]. Idem, p. 99.

[4]. Cf. Nota [1].

[5]. Êxodo 3, 14.

[6]. RATZINGER, 1970, p. 89.

[7]. Idem, p. 90.

[8]. Idem, p. 99.

[9]. Idem, pp. 151-152. Ratzinger observa que o Evangelho de João articula a literatura dos livros sapienciais e do Deutero-Isaías, colocando o “eu sou” no núcleo da Cristologia.  


Sugestões de leitura.

BRAGA, Bruno. “O Legado – Bento XVI” [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/02/o-legado-bento-xvi.html].
______. “A magnitude de Sócrates, por Paul Johnson” [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/03/a-magnitude-de-socrates-por-paul-johnson.html].
______. “O Mistério do Filho do Homem” [http://b-braga.blogspot.com.br/2011/12/o-misterio-do-filho-do-homem.html]. 


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