Thursday, February 28, 2013

O Papa e a revolta.


Bruno Braga.


“A história da revolta, no mundo ocidental, é inseparável da história do Cristianismo”, Albert Camus [1].


A renúncia do Papa Bento XVI e o processo de sucessão do Sumo Pontífice tornaram-se uma funesta oportunidade para potencializar um sentimento que, disseminado na cultura moderna, alimenta a autodivinização do homem: a “revolta” – que do plano do indivíduo adquire expressão na atividade política e social.

Uma “revolta” – observa Camus - só se faz contra alguém. Em um mundo tão cheio de tensões, repleto de obstáculos à vontade insaciável do homem, a noção do deus pessoal, criador e, consequentemente, responsável por todas as coisas, fornece um sentido ao protesto humano [2]. Então, com manifestações e motins, o “homem revoltado” reivindica para si – e para os seus – um poder demiúrgico para criar e erguer o reino da sua vontade - fundado sobre a pedra da matéria e proclamado em nome da “Ciência”. Uma autodivinização que atingiu a dimensão catastrófica com o Nazismo e a escala, não do “genocídio”, mas do “democídio”, com o ainda ativo – e expressivo - Socialismo-Comunismo [3].

O Cristianismo – a religião do deus pessoal e criador – faz o indivíduo erguer a cabeça e o olhar para alto - sem abandonar este mundo, ao qual deve consagrar a própria vida para merecer o outro. Para o revoltado – ou para o revolucionário – esta é uma “blasfêmia” intolerável. O cristão deve ser submetido – dobrar o pescoço e olhar para baixo como o animal -, sujeitar-se à elite governante e iluminada, que anuncia à massa de ignaros o “novo mundo”. Os regimes da autoglorificação colocaram o cristão diante de uma escolha: renunciar a fé ou morrer – e muitos tombaram gritando “Viva Cristo Rei!”. Políticos e ativistas modernos - e seus entusiastas - pretendem recolhê-lo dentro do templo, onde deve permanecer calado sobre a civilização da qual a sua fé é um dos pilares, ou reduzir a sua crença a uma, entre inúmeras outras, formas de satisfação e contentamento, um mecanismo de realização dos desejos mundanos.  

Não há dúvida de que a Igreja Católica é a maior expressão do Cristianismo. O Papa é a pessoa que a representa e dá a ela unidade. Em uma cultura da rebeldia e da revolta, eles são acusados como os responsáveis pelos males do mundo. Enfrentam protestos e manifestações. São achincalhados e ridicularizados. Não há um só grupo entre os “paladinos dos novos tempos” que não os denuncie de obstar o “progresso da humanidade”. O feminismo, a militância gayzista, os abortistas, o secularismo, organizações sociais e partidos políticos revolucionários, o ecologismo – todos berram, esgoelam contra a Igreja Católica e contra o Papa, frequentemente acusando-os de algo que não fizeram ou que não pregaram.  

A renúncia e a sucessão de Bento XVI potencializaram o sentimento de “revolta” daqueles que - não apenas se organizam em grupos políticos e sociais, também de jornalistas, “intelectuais”, formadores de opinião, “teólogos progressistas”, e até do cidadão que acredita ser ele um autêntico “agente de transformação” – estão ansiosos para verem a “modernização” da Igreja Católica e a escolha de um Papa adequado ao “mundo moderno”. É marca do “homem revoltado”, que pretende transformá-los em instrumentos para a realização de seus caprichos e vontades, quando não de seus ambiciosos projetos de poder – é o surto da autodivinização contra o qual Bento XVI bravamente se opôs:   

“Falar para encontrar aplausos, falar orientando-se segundo o que os homens querem ouvir, falar em obediência à ditadura das opiniões comuns, é considerado uma espécie de prostituição da palavra e da alma. A ‘castidade’ à qual o apóstolo Pedro faz alusão não é submeter-se a estes protótipos, não é procurar aplausos, mas procurar a obediência à verdade” [4].   


Notas.

[1]. CAMUS, Albert. “O homem revoltado”. Editora Record: Rio de Janeiro, 2003. p. 45.

[2]. Idem.     

[3]. Cf. R. J. Rummel.

[4]. Homilia do Papa Bento XVI na Concelebração Eucarística com os membros da Comissão Teológica Internacional, 6 de Outubro de 2006 [http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2006/documents/hf_ben-xvi_hom_20061006_commissione-teologica_po.html].


Sugestão de leitura.


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