Monday, November 05, 2012

Ele tem amigos.



Bruno Braga.


O “idiota latino-americano” [1] não é um tipo solitário. Ele tem amigos – e muitos – fora da sua terra. “Intelectuais”, filósofos, sociólogos, políticos, jornalistas e simpatizantes frequentemente são solidários, admiradores, quando não patrocinadores. Esta relação de cumplicidade – por vezes de pura má-fé -, em muitos casos é de absoluta identificação. Eles pensam como o seu amigo “idiota”. Avaliam e julgam a partir de estereótipos e esquemas prontos: luta de classes; ricos e pobres; os brancos e índios; exploradores e explorados; os perversos militares e os idealistas e bravos revolucionários.

A simpatia do amigo gringo é fortalecida pela atualização do mito do “bom selvagem”, o idealismo e a justiça do “bom revolucionário”. Sob este olhar, o latino-americano torna-se o sucessor do proletariado. Ele é a reencarnação do revolucionário que fracassou na Europa e nos Estados Unidos, mas que vem libertar o continente explorado e oprimido – a América Latina que, como reza a “Bíblia do idiota” [2], sangra com as veias abertas.    

Percebe-se que a idiotice não respeita fronteiras. Um colunista da revista americana “The Nation”, por exemplo, retrata o eterno Che “El Chancho” Guevara – o assassino covarde, comandante de fuzilamentos, o desastrado estrategista de guerrilha, o incompetente economista, o ambicioso, o oportunista – assim:

Foi por amor, como um perfeito cavaleiro, que Che deu início à sua jornada. Nesse sentido ele foi como um dos antigos santos.

Na revista “Time” (1960) o guerrilheiro “Chancho” é louvado como um dirigente hábil e competente:

Com um sorriso de doce melancolia que muitas mulheres acham devastador, Che Guevara dirige Cuba com a frieza do cálculo, vasta competência, inteligência superior e agudo senso de humor.

Estas – e inúmeras outras – notas corroboram o destrambelhamento do “idiota latino-americano”. Enquanto ele denuncia aos berros a “mídia imperialista estadunidense”, o próprio Fidel “El Comandante” Castro confessa sem pudor: “Sou o que sou devido ao ‘New York Times’”. Quer dizer, o “idiota” não reconhece sequer os seus “amigos”. O “Comandante”, não. Ele os recebia no acampamento guerrilheiro em Sierra Maestra, onde vários jornalistas americanos eram acomodados em uma barraca especialmente identificada: “Barraca da Imprensa”. Deste relacionamento amistoso e cordial surgiram reportagens, relatos, entrevistas e até mesmo um documentário - “The Story of Cuba’s Jungle Fighters” -, que idealizavam e enalteciam a revolução.

O “idiota” tem amigos gringos também entre os “Intelectuais”. O filósofo francês Jean Paul Sartre é um deles:

Che não é apenas um intelectual, mas foi o mais completo ser humano de nossa época: nosso homem mais perfeito.

Porém, o ativista americano Abbie Hoffman não poderia demonstrar maior afinidade – marcada pela “idiotice” – com o seu amigo latino-americano:  

Fidel aparece sentado na borda de um trepidante tanque que entra em La Habana no dia de Ano Novo... As moças atiram flores no tanque e correm para puxar brincalhonamente a barba negra do líder. Ele ri alegremente e dá beliscões em algumas nádegas. O tanque se detém na praça. Fidel deixa cair seu fuzil no chão, dá uma palmada na coxa e se ergue. Parece um pênis gigantesco posto em ereção, e quando acaba de se erguer, quão alto é, a multidão se transforma no ato.   

É, o “idiota latino-americano” não está sozinho. Ele é apenas carente, mas tem muitos amigos.  


Referências.

[1]. Cf. BRAGA, Bruno. “Para não ser mais um” [http://b-braga.blogspot.com.br/2012/11/para-nao-ser-mais-um.html]; e MENDOZA, Plínio Apuleyo. MONTANER, Carlos Alberto. VARGAS LLOSA, Alvaro. Manual do perfeito idiota latino americano. Apresentação Mario Vargas Llosa; prefácio Roberto Campos; tradução Rosemary Moraes e Reinaldo Guarany. 9a. ed. Bertrand Brasil: Rio de Janeiro, 2011.

[2]. Cf. Eduardo Galeano, “As veias abertas da América Latina”, 1971.

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