Thursday, September 29, 2011

Contra os "filtros da internet": um "filtro".

Bruno Braga.


 

Logo abaixo publico – gravado em caracteres itálicos - um breve comentário que redigi e enviei para o portal de notícias de Barbacena, "Barbacena Online" [www.barbacenaonline.com.br]. Trata-se mais de um pedido de esclarecimento do que de um comentário propriamente dito, elaborado a partir da leitura do artigo de Dimas E. Soares Ferreira, intitulado "A internet e seus filtros" ["Barbacena Online", 24 de Setembro de 2011 - http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=7101&inf=100].

No texto indicado o articulista se pronuncia indignado contra os "filtros da internet", promovidos por sites como o Google, Facebook e o Yahoo. Ele reivindica uma "ética calcada na democratização das informações", pleiteando ainda que estes e outros portais sejam estruturados a partir de um "senso de vida pública, de responsabilidade cívica e transparência".

Acontece que o próprio portal que publicou o artigo de Dimas Soares promove certo tipo de "filtro": os comentários enviados para o site "Barbacena Online" passam por uma análise prévia do Conselho Editorial, que posta apenas os textos "aprovados" pelos responsáveis. Na mensagem abaixo indico exemplos deste expediente: alguns comentários que eu mesmo redigi, referentes a outros artigos de Dimas Soares, e que foram "filtrados". Sendo assim, seria fundamental um pronunciamento, tanto de Dimas Soares quanto do responsável pelo Conselho Editorial do site "Barbacena Online", para esclarecerem esta sutil contradição: um articulista que escreve indignado sobre "filtros da internet", em um portal que promove "filtragens".

A mensagem postada abaixo não foi publicada pelo portal "Barbacena Online". Então, encaminhei ao site outro pedido de esclarecimento, a respeito da não publicação do comentário e solicitando, no caso de "reprovação" do texto pelo Conselho Editorial, a informação dos "critérios utilizados para o julgamento e, conseqüentemente, para fundamentar a reprovação". Não obtive qualquer resposta – e, por isso, posto aqui o comentário "filtrado" para o leitor interessado na questão.

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Dimas Soares Ferreira mostra-se escandalizado com os "filtros da Internet". Então, seria extremamente esclarecedor que ele se pronunciasse a respeito das "filtragens" promovidas pelo Conselho Editorial do site "Barbacena Online" sobre os comentários referentes aos artigos de sua própria autoria - o Conselho este que analisa previamente os comentários enviados ao portal, mas publica somente os que passam por um certo "filtro".

Para o leitor interessado, exemplos de comentários sobre os artigos de Dimas Soares Ferreira que foram filtrados e, conseqüentemente, não publicados, podem ser acessados nos respectivos endereços: 1. "Comentário" [http://dershatten.blogspot.com/2011_05_01_archive.html]; 2. "Novo comentário [http://dershatten.blogspot.com/2011_04_01_archive.html]; 3. "Mais três comentários" [http://dershatten.blogspot.com/2011_03_01_archive.html]; 4. "Dois comentários" [http://dershatten.blogspot.com/2011/03/dois-comentarios.html].

Em nome da "democratização da informação", reivindicada pelo próprio Dimas, espero que este comentário não tenha o mesmo destino dos acima citados.

Cordialmente,

Bruno Braga.

http://dershatten.blogspot.com

Belo Horizonte, 25 de Setembro de 2011.

Thursday, September 22, 2011

"O Astro": um exemplo didático que caiu do céu.


Bruno Braga.

 
A teledramaturgia no Brasil exerce, sobre a sociedade, um poder extraordinário. Ela, com suas tramas, não apenas prende a atenção da audiência maciça que assiste às novelas; mas, através de seus personagens, é capaz de lançar modas, ditar bordões, estimular comportamentos, e moldar a forma de pensar do telespectador.

Tão popular quanto as novelas é a idéia de que o poder da teledramaturgia sempre esteve a serviço de "setores reacionários e conservadores da sociedade". É preciso verificar, porém, se esta idéia comum - de certo modo confusa, opaca, obscura – tem um correspondente na realidade, quer dizer, é necessário identificar os agentes reais e concretos que estão por trás dela. Basta iniciar a investigação, para que imediatamente surja um nome de grande vulto que contradiz o senso comum: Dias Gomes.

Aclamado dramaturgo e autor de telenovelas, Dias Gomes foi um comunista de carteirinha. Ingressou no Partido Comunista Brasileiro na década de 40. Embora tenha permanecido no partido até 1971, colaborou imensamente com a "revolução", mesmo após sua saída. Em 1995, ao ser questionado se quando jovem ele escrevia "em sentido revolucionário", Dias Gomes sorriu e disse: "Até hoje" (Entrevista para o programa Roda Viva, em 12 de Junho de 1995. A transcrição está disponível no endereço:http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/405/dias%20gomes/entrevistados/dias_gomes_1995.htm). Era um agente que concorria para o sucesso da estratégia da revolução cultural. Neste domínio a tática adotada não era a da campanha publicitária explicita do Socialismo-comunismo, fazendo tremular bandeiras vermelhas estampadas com a foice e o martelo, ou proclamando as palavras de ordem de seus líderes e teóricos. Não – o estratagema era atacar veladamente os valores tradicionais da cultura, sobretudo os judaico-cristãos, pejorativamente chamados de "moral burguesa". Comprometido com esta estratégia revolucionária, o próprio Dias Gomes revela em sua autobiografia - "Apenas um subversivo", de 1998 - como militou em favor do "divórcio" na novela "Verão Vermelho" (1970). Este não foi um caso isolado e excepcional: em "Assim na terra como no céu" (1970) o alvo era o celibato clerical, e em "Roque Santeiro" (1975), o Cristianismo. As investidas contra a cultura tradicional apareciam diluídas nas tramas, em um formato que o público, o telespectador, as pudessem digerir e, conseqüentemente, aceitá-las.

Talvez o tempo seja um obstáculo que dificulte a compreensão desta estratégia revolucionária, pois fora aplicada na já distante década de 70. Esta dificuldade, contudo, pode ser superada recorrendo a uma produção atual da teledramaturgia, uma amostra que, pode-se dizer, "caiu do céu": a reapresentação da novela "O Astro".

Originalmente redigida por Janete Clair, "O Astro" foi um enorme sucesso em 1978. A novela foi o coroamento da carreira da escritora, que começou com o estimulo do marido, Dias Gomes. O casal dominou a teledramaturgia nacional dos anos 70. No entanto, a influência de Dias Gomes sobre as composições da mulher não se limitou apenas ao incentivo; ela afetou também a elaboração das tramas e dos personagens, nos quais inoculava as suas pretensões revolucionárias. Embora a nova versão de "O Astro" apresente reformulações, é possível extrair dela algumas destas pretensões, conservadas da produção original. Uma delas aparece dissimulada no conflito entre Márcio Hayalla e o seu pai, Salomão.

Márcio é um jovem idealista. Filho único, ele é o herdeiro do império construído pelo pai, Salomão: a rede de supermercados do grupo Hayalla. Contudo, para o jovem o mundo dos negócios é sujo, ele corrompe as pessoas – por isso, em vez do "Capitalismo", Márcio sonha com uma vida de "liberdade" e um mudo no qual haja "igualdade entre todos". Nestes termos fica estabelecido o conflito: de um lado o jovem idealista e revolucionário; do outro o seu pai, o magnata capitalista, conservador e "reacionário". Algumas cenas ilustram este confronto.

No episódio de 12 de Julho de 2007 [http://oastro.globo.com/capitulo/herculano-e-preso-e-conhece-ferragus-na-cadeia.html#cenas/1562952], Márcio abre as portas de um dos estabelecimentos de Salomão para mendigos. Na entrada o jovem oferece dinheiro aos miseráveis para que eles possam consumir o que quiserem – assim, justifica-se Márcio para o pai indignado, não haveria prejuízo nos negócios, pois os mendigos estavam "comprando" as mercadorias. No entanto, as cenas exibem o contrário: mostram o saque do estabelecimento – o que coloca como pano de fundo uma "luta de classes".

Em 13 de Julho há um trecho emblemático [http://oastro.globo.com/capitulo/salomao-manda-internar-o-filho-marcio.html]. Em uma confraternização social na mansão da família Hayalla, Márcio aparece nu entre os convidados para enfrentar o pai. O jovem acusa Salomão de ser um "tirano" de uma "família patriarcal" que subjuga a mulher – e vocifera: "Pai, por favor, pai! O dinheiro destrói as pessoas, ele só traz infelicidade!" [...] "Se preocupe com os pobres!" [...] "Eu quero que o mundo seja melhor! Que o mundo seja mais feliz, pai!" [...] "Viver com liberdade" [...] "fora da sangria de ter que ganhar dinheiro" [...] "Dinheiro sujo". Após a inflamada discussão pública, o próprio Salomão conduz o filho até o andar superior da casa, onde o espanca – no dia seguinte ele interna Márcio em um Hospital Psiquiátrico.

As cenas descritas apresentam uma série de caracterizações diluídas e camufladas. Como a de que a família tradicional é tirânica, opressora, sem amor e afeto; como a de que o mundo está configurado pela "luta de classes"; que o "Capitalismo" e o "dinheiro sujo" destroem os ideais de "igualdade" e de "liberdade", que violentam o "povo" e trazem somente "infelicidade". Com estas caracterizações a revolução cultural estava sendo executada – seduzindo e configurando o imaginário popular, de modo que, quando estes estereótipos estivessem profundamente enraizados, os que professavam os mesmo ideais no domínio político-social estariam protegidos e imunizados. Para identificá-los é necessário verificar quem reivindica o poder em nome do "povo", e promete, com ele, a "liberdade" e a "igualdade" em "mundo maravilhoso", "melhor" e "feliz"; quem acusa o "Capitalismo" e o "dinheiro" de serem a causa de todos os males do mundo; denuncia a suposta tirania da família tradicional e a corrupção da "moral burguesa". Não é preciso muito esforço para reconhecer que todas estas bandeiras são levantadas pelos revolucionários Socialistas-comunistas, que com o trabalho estrategicamente efetuado pelo seu braço na cultura popular – como os de Dias Gomes e Janete Clair – adquiria respaldo e imunidade a críticas. A conquista do poder político não tardaria, de modo que, chegado o momento, não haveria praticamente nenhuma oposição, pois o imaginário popular já estaria configurado com os seus próprios ideais.

Se o poder da teledramaturgia é, hoje, algo indiscutível, qual seria o seu potencial quando Dias Gomes e Janete Clair levaram ao ar os seus trabalhos? A distância produzida pelo tempo não impede de encontrar algumas pistas para uma resposta. Carlos Drummond de Andrade escreveu em sua coluna no "Jornal do Brasil": "Agora que 'O Astro' acabou, vamos cuidar da vida, que o Brasil está lá fora esperando". Por sua vez, Mauro Mendonça Filho, diretor-geral da nova versão de "O Astro", teme que a produção recente não repita o sucesso da original, porque "na época a novela tinha mais audiência, e a Globo não tinha concorrência [...] (Cf. http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/940534-sucesso-nos-anos-70-o-astro-volta-a-globo-como-macrosserie.shtml). Isto indica que as novelas tinham ainda mais poder do que têm atualmente. Este poder estava a serviço da causa "revolucionária". O resultado da estratégia cultural – com a qual colaboraram os trabalhos de Dias Gomes e Janete Clair - pode ser reconhecido na própria cultura popular contemporânea, formatada com os mesmos tipos ideais e os estereótipos disseminados por seus agentes e militantes, entre eles, o de que a teledramaturgia obedece aos interesses de "setores reacionários e conservadores da sociedade".

 

 

 

Thursday, September 15, 2011

O artifício de negar "a" Verdade para afirmar as "suas próprias" verdades.

Bruno Braga.


 

Refletir sobre a Verdade é um exercício atormentador. E pode ser ainda mais pavoroso ter que enfrentá-la. Por isso, tão logo surge o problema, um artifício muito comum é invocado para fugir dele: "será que a verdade existe ou cada um tem a sua?"

Em geral a Verdade é constrangedora. Ela arruína de uma só vez as certezas individuais mais estimadas; isto, automaticamente, provoca certo desconforto, desperta o temor, a insegurança, asco, repulsa. Neste sentido, o recurso ao argumento das verdades particulares, além de afastar a discussão objetiva, a investigação da matéria propriamente dita, é um artifício para fugir do constrangimento promovido pela Verdade – seja numa espécie de auto-engano, para livrar-se do descontentamento consigo mesmo e resguardar a auto-estima; ou para salvaguardar a sua reputação diante do olhar público, encontrando nele abrigo, conforto e segurança. No entanto, este estratagema, esta manobra astuciosa, não é a proteção das "suas" verdades – é, sim, a defesa das suas ilusões. Acontece que este artifício se disseminou de tal maneira na cultura popular que grande parte das pessoas ou o vêem com indiferença ou o aceitam como válido.

Invocar as "suas verdades" poderia ser adequado para as questões de foro íntimo, guardadas no próprio interior, e nas quais o indivíduo especula sobre o sentido da vida, o significado do mundo, ou elabora suas teorias a respeito dos fatos e eventos da sua existência ordinária – com a ressalva de que estas "verdades" são apenas um emaranhado de impressões, de idéias e conceitos vagos misturados a sentimentos e expectativas confusas. Por isso não é permitido ampliar o espectro deste emaranhado de sentimentos e impressões para que ele seja o fator definitivo na descrição dos fatos objetivos. Porque, ainda que seja um elemento que concorre para a produção das formulações do sujeito que conhece, ele não é o único: é necessário o assento da realidade objetiva – ela que, em uma investigação séria, regula e arranja as idéias. Em outras palavras, é preciso que haja uma correspondência efetiva entre a hipótese imaginada pelo sujeito e os dados da realidade. Do contrário, se a experiência efetiva, o mundo objetivo, desmente a hipótese, a conseqüência natural será o abandono dela, a renúncia das idéias e concepções que antes eram aparentemente razoáveis. Porém, este não é o expediente daquele que defende as "verdades subjetivas".

A grande dificuldade de quem recorre ao argumento das "suas" verdades é abandonar as suas "crenças". Se a realidade, ou algum outro meio inequívoco de prova, o contradiz, ele imediatamente tem a resposta: "cada um tem a sua verdade". É assim que se aferra ainda mais às suas ilusórias concepções. Quer evitar, a qualquer custo, a náusea, a vertigem, a censura da consciência, a crítica pública – ele não suporta a perda do apoio e do conforto de suas ilusões, ou o tormento diante do abismo aberto pela Verdade. Um comportamento que encontra abrigo, e é até estimulado, por outras idéias confusas e vagas cultivadas na esfera pública: por exemplo, a "liberdade de opinião", que confere ao indivíduo a certeza de não ter que responder, na carne, pelos próprios pensamentos (GUITON, 1951, p. 21) – e por isso ele se escandaliza quando as suas posições são contestadas; e o "direito de falar", que se assemelha ao comportamento dos franceses, nos quais grande parte da intelectualidade brasileira se inspirou, "estar sempre falando, não importa se sabem ou não algo sobre o assunto" (apud JOHNSON, 1990, p. 272).

Porém, o artifício das "suas" verdades apresenta dois problemas. Um deles é insuflar no sujeito que conhece – o mais apropriado seria chamá-lo de "sujeito que crê" – uma falsa convicção de que a partir da sua cabeça, única e exclusivamente, ele é capaz de deduzir todo o mundo e conhecê-lo. É o convencimento de que as próprias idéias, concepções, de que a própria imaginação é suficiente para descrever qualquer situação ou fato, dispensando a realidade diante dos próprios olhos, ou sem a necessidade do esforço da busca pelo conhecimento, isto é, da dedicação aos estudos, da seriedade e honestidade nas investigações. Porque se um dado da realidade, um documento, uma evidência, o desmente, pior para eles, pior para o mundo, pois "cada um tem a sua verdade" – uma sentença que confere atributos divinos ao indivíduo que a profere: onisciência e onissapiência. O outro problema é detectado com a persistência em recorrer ao argumento das verdades subjetivas, às "suas" verdades, depois que o artifício da sua utilização foi revelado: é o sintoma de uma covardia intelectual fora do comum.

Friday, September 09, 2011

As dimensões do debate intelectual: Dialética e Erística.

Bruno Braga.


 


 

Esta (a verdade) não encontra partidários.

Schopenhauer, MVR, 2005, p. 28.


 


 

O debate intelectual sério e honesto envolve um complexo de elementos. No entanto, ele poderia ser resumido a uma disputa na qual os participantes defendem as suas concepções. Neste confronto os debatedores aplicam todas as suas habilidades na construção de argumentos precisos e fundamentados, de modo a torná-los capazes de, não apenas sustentar as suas posições, mas de desmantelar todo o arsenal argumentativo do seu adversário.

Acontece que, embora o debate intelectual esteja estruturado na forma do embate, do conflito, o seu horizonte é a Verdade, quer dizer, uma descrição coerente nos seus termos e articulada com o fato da realidade empírica objeto da disputa. Por isso, é pressuposto que os adversários tenham sinceridade na exposição dos argumentos – por mais constrangedores e desagradáveis que eles possam ser - e honestidade intelectual para cederem a sua posição quando o seu argumento for derrubado. Somente assim é possível passar para um patamar mais elevado da descrição dos fatos, com maior coerência e articulação. Uma aproximação lenta e demorada da Verdade.

Porém, se os adversários abandonam estes pressupostos, não seria nenhuma extravagância suspeitar da condução do debate, e prever para ele conseqüências funestas. A principal delas é quando as partes passam a se ver simplesmente como pólos diametralmente opostos; então o único objetivo da disputa será "vencer" o debate. É assim que se perde o horizonte da Verdade e, sobretudo, a dimensão da compreensão. Este desvio é o que marca e distingue o debate intelectual sério da mera disputa, a dialética da erística.

Quando os debatedores objetivam apenas a defesa de suas concepções particulares - ou as do grupo ao qual pertencem – em um esforço contínuo e intenso para fazê-las prevalecer sobre as concepções de seus adversários, está em jogo a sua reputação, ou a de seus partidários, ou até mesmo uma posição social. A derrota no debate, então, seria vergonhosa: orgulho agredido e rebaixado, a vaidade arranhada aos olhos do público - pois foi vencido em uma das maiores ambições do homem, a do conhecimento; perda da credibilidade para desempenhar determinado papel social. Antecipar a derrota no imaginário, partindo do pressuposto de que o objetivo do debate é apenas a vitória, dá uma amostra do asco, da náusea, da repugnância que causaria uma eventual derrota: um mal-estar que precisa, a qualquer custo, ser evitado na disputa efetiva. Para isso os debatedores se dedicam, concentram todos os seus esforços, para alcançarem a vitória, mesmo que seja necessário utilizar subterfúgios, ardis - estratagemas que, se não têm força na discussão objetiva, quer dizer, na elucidação do mérito da questão, por outro lado podem ser extremamente eficazes para atingir o único fim almejado no domínio da disputa, a derrubada do oponente.

A estruturação do debate nestes termos é resultado de uma visão unidimensional dos envolvidos. Basta que um, apenas um, deles enxergue com este óculos, quer dizer, que se comprometa com a mera disputa, para que a tensão esteja instaurada. Então o outro passa a ser visto como um inimigo, alguém que ameaça não apenas as suas teses, mas o seu orgulho, a sua reputação, e o seu papel social. Contudo, esta é uma perspectiva reduzida e fechada do debate intelectual. Se o seu horizonte primordial é perdido – a pretensão da Verdade – é necessário assumir um ponto de vista superior: em um ângulo que foque o debate, não a partir do conflito horizontal, mas da compreensão elevada.

Comprometer-se com um debate superior não é uma simples opção formal. Envolve também uma renúncia individual, a negação do próprio orgulho, da própria vaidade, em um esforço contínuo para conservar o seu único horizonte, a Verdade - a compreensão, que acima de qualquer outro interesse envolve o nobre elemento ambicionado pelo homem, o conhecimento.

Manter-se na "senda reta" é uma dificuldade para todo e qualquer ser humano – pois é preciso superar o amor-próprio e a presunção que preenchem o coração. No entanto, além destes obstáculos subjetivos, acrescentam-se outros que, no Brasil, atingiram níveis epidêmicos. Os mais populares são: o "politicamente correto" – que exige valores equivalentes para posições contrárias que pretendem descrever o mesmo fato; e a "politização" de todas as discussões, que transforma automaticamente os debatedores em "direitistas" e "esquerdistas". O equívoco do primeiro seria o mesmo do de um Juiz que, na sentença que profere para dirimir um conflito, dá ganho de causa para as duas partes. E o do segundo é não pressupor a "neutralidade", que é possível, sim, e até necessária para uma eventual tomada de posição.

Na dimensão superior do debate o estado tensional produzido por concepções contrárias não é eliminado. No entanto, em vez da ambição horizontal da vitória, os adversários intencionam a dimensão superior da Verdade. Eles abandonam a condição de partidários, militantes, para assumir a essencial e nobre atividade humana, a do conhecimento. Nesta dimensão mesmo o derrotado sai vitorioso, porque compreende algo mais sobre o mundo e sobre si mesmo. A satisfação obtida através deste conhecimento é superior à que se alcança por meio da vitória na mera disputa. Enquanto esta é uma satisfação transitória e passageira, relativizada no olhar e na consideração do público, o entusiasmo produzido pelo conhecimento é absoluto, porque se efetiva no interior da consciência individual.

Thursday, September 01, 2011

Culto a "El Chancho".


Bruno Braga.






Com a simples pronúncia da palavra "revolução" é possível estimular, na maioria das pessoas, sentimentos de entusiasmo e euforia. Palavra poderosa, que revigora o espírito, que injeta nele ânimo e inspiração – que aviva e excita. Invocando a "revolução", inocula-se na mente de muitos que a ouvem ou lêem, a idéia e expectativa de que é possível transformar, "recriar" completamente, o mundo. Cada um destes "espíritos reavivados" se sente o agente transformador, o Demiurgo que destruirá a tradição, quer dizer, o "velho", o "arcaico", o "ultrapassado", e dará forma ao "novo mundo", ao "novo homem" – obra feita, obviamente, a partir dos seus caprichos e para suprir as suas carências. Este é o poder sedutor da "revolução": alimentar o imaginário com a sensação de poder. 


A "revolução" não é algo que encanta apenas a juventude. Embora seja uma válvula para que os mais novos invistam sua energia intensa, cega e inconseqüente - e por isso a juventude é um terreno fértil para a captação de militantes – a "revolução" é um instrumento nas mãos de homens experientes, como o foi para Lênin, Stálin, Mao Zedong. Portanto, a "revolução" é um abrigo, independentemente da faixa etária: para os jovens é um canal para descarregarem os seus excessos, confusões, ansiedades, e excitações; para os homens experientes a "revolução" é um meio para se auto-proclamarem "Construtores de mundos". É verdade que estas disposições e motivações podem se misturar em jovens e homens experientes – mas o que ambos têm em comum é que, através da "revolução", reivindicam uma concentração de poder sob a promessa de realizarem um futuro que ainda não vislumbram, mas supõem ser maravilhoso.

Nestes termos, a força excitante da "revolução" não está baseada em doutrinas, em uma teoria coerente. Sua justificação não está fundada em modelos econômicos, estruturas administrativas estatais, em tipos de organização da sociedade. O elemento principal da "revolução" é a concentração do poder – independentemente das elaborações doutrinárias e teóricas, dos princípios e modelos utilizados para este objetivo. A concentração de poder é o elemento que seduz e embriaga; é ele que, por provocar este estado de alucinação, permite que os tipos mais repugnantes sejam transformados em "heróis", em figuras idolatradas, glorificadas, pelo simples fato de terem sido "revolucionários". Este é o caso de Ernesto Guevara.


Cultuado em todos os cantos do mundo, Che Guevara sabia conquistar com as palavras. Além de encantar com discursos em prol da "liberdade", da "igualdade", e contra os "inimigos do povo", afirmou certa vez que o revolucionário é "o escalão mais alto da humanidade". Com esta auto-glorificação arrebanhou militantes para o seu ambicioso projeto de transformação radical do mundo, introduzindo em cada um dos seus "companheiros" e admiradores a ilusão de serem superiores - intelectual e moralmente - a todo o restante da raça humana. Assim iludidos, alçados a um status de quase divindades, os "revolucionários" julgaram-se autorizados, valendo-se de qualquer meio, a transformar radicalmente o homem e o mundo. 


Mas é necessário quebrar o encanto das palavras e observar o que está por trás do "mito". É preciso atravessar o desvario revolucionário que bloqueia a consciência moral. Que impede que se reconheça, no mesmo "herói" que discursa em favor da "liberdade", da "igualdade", aquele que elogia o "ódio eficaz que faz do homem uma eficaz, violenta, seletiva e fria máquina de matar". O mesmo que de maneira inexorável diz: "não posso ser amigo de alguém que não compartilha com minhas idéias" (in COURTOIS, 1998, pp. 730-731). O dono destas palavras foi quem fuzilou impiedosamente, e sem qualquer direito de defesa, um jovem de sua coluna por ter ele roubado um pouco de comida. Foi o próprio Che Guevara. Para Régis Debray, seu companheiro na Bolívia, Che foi "um partidário do autoritarismo a qualquer preço" ("Loués soient nos seigneurs", Gallimard, 1996, p. 184).



Nem mesmo a morte comovia o "revolucionário" argentino. O cárcere de "La Cabaña", de onde Che oficiava, foi local de inúmeras execuções, principalmente de antigos companheiros de armas que se declaravam "democratas".



Nas atividades burocráticas, além de "fiscal", Che Guevara ocupou o ministério da Indústria e foi diretor do Banco Central de Cuba. Foi Ministro da Economia, embora não dominasse sequer as noções elementares da função que desempenhava – conseqüência inevitável: destruiu o Banco Central cubano. Che foi um verdadeiro fracasso nas questões econômicas; mas nos assuntos "disciplinares" estava "perfeitamente habilitado": "Foi ele e não Fidel quem inventou em 1960, na península de Guanaha, o primeiro campo de trabalho corretivo (o que nós chamaríamos trabalhos forçados)" [...], conta Régis Debray (Op. Cit. p. 185).


Enfim, Che Guevara foi um indivíduo intolerante e frio. Um desastrado Ministro da Economia. Um assassino sanguinário e covarde. Em Cuba foi um dos artífices do recrutamento da juventude, sacrificada ao culto do "novo homem" (COURTOIS,     1998, p. 731). Restaria, pois, algo que justificasse ainda o culto idolátrico do "revolucionário"? Uma bela e inspiradora foto de Alberto Korda, de 1960, intitulada "Guerrillero heroico", talvez; ou o poder encantador e inebriante da palavra "revolução" – aquela mesma que produz um discurso auto-glorificante, que estimula os seus líderes e seduz os militantes com a falsa idéia de serem "o escalão mais alto da humanidade". Mas, se o "encanto" é desfeito, e o véu do mito é retirado, se revela o que o "herói" de fato foi, o que ele fez. Então, persistir na idolatria é promover, literalmente, um culto a "El Chancho" – ao "Porco", como era chamado Che Guevara na infância.