Friday, March 25, 2011

Mais três comentários.

Bruno Braga.


 

Na última postagem (15 de Março de 2011) disponibilizei dois "comentários" enviados para o site "Barbacena Online" (www.barbacenaonline.com.br) que continham observações sobre determinados textos publicados no canal. O Conselho Editorial do referido site, no entanto, encarregado de um exame prévio das manifestações dos leitores, decidiu por não dar-lhes publicidade. Aos "dois comentários" anteriores somam-se agora "mais três", que também aqui decido estampar, já que, após insistente pedido de esclarecimento sobre a fundamentação destas novas "filtragens", não houve nenhum retorno por parte dos responsáveis.

A seguir os comentários - textos em itálico, na versão original enviada para o site "Barbacena Online" - com as respectivas referências.


 

I. Bruno Braga. Comentário referente à notícia "'A cor da cultura' entra em nova etapa" [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=5612&inf=100].


 

Cara Maria Eneida,


 

Antes desta "formação continuada", pela qual passam professores e técnicos em educação, seria pertinente que estes profissionais se inteirassem sobre o projeto maior, do qual "A cor da cultura" é apenas um dos seus braços. Assim constatariam que propostas deste tipo trazem consigo: a elaboração de uma narrativa, reduzida e distorcida, da História; a introdução na cultura da "consciência da "raça"", que fere lições básicas de genética; a instauração da bipolaridade entre "negros" e "brancos", desprezando os "pardos" ("mestiços") – estes que são quase metade da população e assim se auto-declaram como não possuindo raça nenhuma, ou seja, não se consideram nem negros nem brancos, mas uma "mistura" [Cf. http://noticias.uol.com.br/especiais/pnad/2010/ultimas-noticias/2010/09/08/cresce-proporcao-de-pardos-e-pretos-no-pais-brancos-amarelos-e-indigenas-perdem-espaco.jhtm?action=print]; uma interpretação equivocada do "princípio de igualdade", que objetiva estabelecer a igualdade através da "diferença"; manipulações políticas e inclusive legislativas (Cf. Lei 12.288/2010 – Estatuto da Igualdade Racial – Exemplo: Considerar a pessoa que se auto-declara "parda" como parte da população negra [Art. 1, IV]).

Agora, uma observação importante, criticar projetos deste tipo não significa adotar a posição contrária, a do Racismo. Pelo contrário, pretendo indicar que, para amparar os mais necessitados não é preciso recorrer à diferença da "cor da pele", nem à ancestralidade: basta considerar que eles são simplesmente seres humanos.

Grande abraço.

Bruno Braga.

Barbacena, 14 de Março de 2011.

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II. Bruno Braga. Comentário a respeito do texto de Geraldo Trindade intitulado "O que está acontecendo no mundo?" [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=5733&inf=100].

Caro Geraldo Trindade,

Em sua dissertação você simplifica os eventos ocorridos no mundo árabe. Isto é um equívoco na medida em que se coloca ocorrências que têm motivações distintas em um mesmo plano – como você faz com os eventos da Líbia e do Egito. Este equívoco metodológico – ou por desconhecimento de causa – tem conseqüências desastrosas, sendo uma delas a afirmação de que os manifestantes "não pertencem nem defendem as tradições nacionalistas, de um estado árabe e teocrático". Ora, no caso específico do Egito quem articula protestos, manifestações, e age como protagonista da oposição política é a Irmandade Muçulmana – uma entidade de origem obscura, que já esteve associada com o Nazismo, que está intimamente ligada a organizações terroristas (Hamas) [Cf. Jim Mars e Peter Levanda], e tem compromisso radical com a instauração do "Califado Universal". Neste caso não é o "povo", ou a "grande massa", que protesta e realiza manifestações – trata-se de certo número de pessoas que funciona como "grupo de pressão" em favor dos interesses de uma entidade muito bem organizada.

Além disso, apresentar os árabes como povo "explorado" e "dócil" a governos ditatoriais é reduzir uma história – repleta de conflitos religiosos, batalhas contra ocupações estrangeiras, lutas de independência, movimentos libertários, guerras de invasão, ocupação e dominação na Ásia, África e Europa, e até exploração do trabalho escravo (Cf. MAGNOLI, p. 196) – para criar estereótipos panfletários ou idealizações políticas.

Grande abraço.

Bruno Braga.

http://dershatten.blogspot.com/


 

Belo Horizonte, 20 de Março de 2011.

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III. Bruno Braga. Comentário sobre o texto de Dimas E. Soares Ferreira, "Ensaio crítico sobre a corrupção: teoria, percepção e realidade" [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=5740&inf=100].

Caro Dimas,

Em seu texto você aponta o responsável pelos "desvios éticos": as ambições e a ganância das sociedades humanas. No entanto, as "sociedades" não são ambiciosas ou gananciosas, pois as "sociedades" não têm realidade efetiva, mas somente os "indivíduos" que a compõem – estes sim são ambiciosos, gananciosos, e responsáveis por "desvios éticos". É assim porque "sociedade" é uma abstração, é um "universal" que não tem existência própria senão na "substância primeira" que a corporifica, ou seja, em cada um dos homens que dela faz parte – o indivíduo concreto, portador de sentimentos e paixões, e capaz de agir. Ademais, falta à "sociedade" a unidade de intenções e autoconsciência – pré-requisito necessário para a ação e, conseqüentemente, para a culpabilidade, isto é, para ser responsabilizado por "desvios éticos".

Sobre o levantamento histórico e teórico que você estabelece ao longo do texto poder-se-ia fazer algumas observações – selecionei duas.

A primeira diz respeito à consideração da política e do pensamento grego. Você utiliza uma chave interpretativa que não se aplica, de maneira nenhuma, àquele período – a da velha e conhecida "luta de classes", recorrendo ao vocabulário, "oligarquia", "povo", etc.. É pertinente apontar o equívoco de se aplicar esta chave interpretativa porque ela contamina a sua utilização do termo "democracia" – que no mundo grego tinha um significado bem peculiar, muito diferente das suas pretensões. Por exemplo, a democracia grega não atingia os "escravos", que eram, em Atenas, 3/5 da população e não tinham qualquer direito político (DURANT, 2000, p. 31). Nestes termos, a sua consideração, feita sob a luta entre "oligarquia" e "povo" não se sustenta.

A segunda observação se refere à incapacidade dos liberais, alegada por você, de explicar "os índices altíssimos de corrupção registrados na Rússia logo após sua opção pelo modelo liberal quando se deu um intenso processo de privatizações e desregulamentações". Para explicar o fato – sem vincular-me a nenhuma corrente teórica ou política – basta recorrer às considerações feitas anteriormente: não são os modelos políticos os culpados, os responsáveis pela "corrupção", mas os "indivíduos concretos", efetivos, que se utilizam deles enquanto "instrumento" para a realização de suas "ambições" pessoais, ou as do seu grupo – formando, por sua vez, por indivíduos concretos que compartilham os mesmos interesses. Nestes termos, quais são, em sua maior parte, os indivíduos que permaneceram após a derrocada do socialismo soviético? A própria elite burocrática do modelo de Estado antigo. Ou você pensa que, abandonado o socialismo soviético, toda a elite burocrática, membros do partido, comandantes militares, e agentes da KGB, voltaram para suas casas, para cuidar da família e do cachorro? Não. E cito apenas um exemplo de que estes mesmos permanecem no poder: Vladmir Putin, filho de um ex-agente da NKVD (antiga KGB [Sobre o orçamento e as atividades da KGB, Cf. COURTOIS, 1998; "Conversation with Yuri Bezmenov" – Video]). A questão está, então, explicada.

É isso, Dimas. Outros pontos do seu texto poderiam ser discutidos – mas, estes me pareceram os mais pertinentes para uma primeira consideração.

Cordialmente,

Bruno Braga.

http://dershatten.blogspot.com/


 

Belo Horizonte, 20 de Março de 2011.


 

Tuesday, March 15, 2011

Dois comentários.

Bruno Braga.


 

Dou publicidade a dois "comentários" enviados para o site "Barbacena Online" [www.barbacenaonline.com.br] – ambos destinados ao espaço aberto para a manifestação dos leitores dos textos publicados pelo canal. Disponibilizo aqui os comentários porque o Conselho Editorial do site supra citado, responsável por uma análise prévia das considerações dos leitores, não o fez no domínio e no contexto apropriados. A seguir, os comentários (caracteres em itálico) acompanhados das respectivas referências.

I. Bruno Braga – Comentário sobre o texto de Dimas Soares Ferreira, "Barbacena e sua encruzilhada" [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=5451&inf=100].

A título de esclarecimento, seria importante repassar alguns comentários postados recentemente – os de Marco Aurélio Lima (14.02.2011) e os de Alcides Brenan (14.02.2011).

Caro Marco Aurélio, argumentos não são desmontados com "votos", mas sim com outros argumentos, quer dizer, com o esclarecimento fundamentado exposto na análise e no exame pretendido dos primeiros – é assim porque a discussão séria se orienta, não por um critério "quantitativo"; pelo contrário, está em jogo o elemento "qualitativo", ou seja, o conteúdo das idéias articuladas. Além disso, Marco Aurélio, você se utiliza de outro estranho parâmetro de julgamento ao indicar que "posicionamentos" são medidos pela publicidade: se são "ultrapassados" e "antigos", isto já seria suficiente para descartá-los – como se fundamentados fossem as "posições" que aparecem na revista "Caras", ou os que desfilam nos discursos das modelos do "São Paulo Fashion Week", enfim, os "posicionamentos" que estão "na moda". Sugiro o seguinte, Marco Aurélio: conteste "o que" eu disse, o conteúdo "objetivo" dos meus comentários; porque, embora você tenha dito que eu "nunca consigo" desmontar os argumentos de Dimas Ferreira, você mesmo não apresentou nenhuma justificação, nenhuma análise, nenhum exame, esclarecimento ou explicação das concepções expostas na minha postagem.

Agora, não tenho nenhuma filiação partidária, nenhuma pretensão política, e, por isso mesmo, qualquer intenção de obter "ressonância" – meu interesse é a "compreensão": neste domínio são débeis os critérios da "publicidade", da "audiência". De qualquer maneira você pode consultar o que escrevo no meu Blog particular [http://dershatten.blogspot.com], no Blog "Zinnecult" [http://zinnecult.zip.net/], ou conferir os artigos publicados no próprio Barbacena On line ("Um teólogo militante sob suspeita" [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=4736&inf=4] e no "Barbacena Cultural" ("Uma reflexão ética" [http://barbacenacultural.wordpress.com/2010/07/01/barbacena-cultural-nasce-tertulia/]. Em todos estes canais você pode postar os seus comentários e criticar o meu modesto esforço, porque a discussão intelectual não é nenhum ato "preconceituoso".

Passo a comentar a postagem de Alcides Brenan (14.02.2011). Não conheço a Tabata Costa, não tenho procuração para defendê-la, e nenhuma pretensão de fazê-lo, nem mesmo pelos elogios que ela, com relação à minha postagem, teceu. No entanto, Alcides, não é vergonha nenhuma mudar de posição, porque não é vergonha pensar. Um célebre filósofo francês disse certa vez: "Não me envergonho de mudar de opinião porque não me envergonho de pensar" (Blaise Pascal). Afinal, aqui não está em jogo a "fidelidade" – porque, manter-se fiel a argumentos abatidos em seus alicerces (não faço referência à minha análise do texto de Dimas Ferreira) poderia ser um sintoma da "espiral do silêncio", quer dizer, manter-se ao lado do grupo por medo de ficar sozinho; ou mesmo conservar sua posição por temor de acusações de "traição" ou de "desvio de ideologia", o que era uma prática recorrente nos tribunais socialistas comunistas (Cf. COURTOUS, 1997). Aliás, por falar em "acusação", Alcides, não "acuso" Dimas Ferreira de "marxista radical" ou "petista inveterado" – porque abraçar ideologias e tomar posições políticas não é crime, é algo permitido a qualquer pessoa; porém, isto não significa que estas mesmas opiniões estejam imunes a análises e críticas.

Você se espanta, Alcides, porque eu aponto o PT como um partido de "esquerda social-comunista". Acontece que, este escândalo talvez seja devido ao desconhecimento da estratégia adotada por partidos que têm esta tendência. Estes jogam em duas frentes: uma ala mais moderada, e a outra mais radical, que articulam suas propostas conforme a recepção pública delas. É assim dentro dos quadros do próprio partido, como também na relação com os seus aliados - porque, embora se oponham em algum momento, no final estão juntos, sob a bandeira de uma só cor (que agora é também "verde").

Caro Alcides, você fala em "ódio", em "rancor". No entanto, leio no seu, isto, no SEU comentário, que determinadas pessoas deveriam tirar suas "máscaras" – pessoas que você, Alcides, de maneira impressionante, fantástica, mágica, dotado de um poder premonitório "estratosférico", aponta como defensores do "status quo", das "desigualdades sociais", que "odeiam" a "classe trabalhadora" e "sonham com um mundo de riquinhos burgueses cheirando lavanda"; pessoas, Alcides, que você diz, "não passa de GENTE ciumenta e invejosa". Quanta amabilidade, Alcides. É para ficar comovido com tanta benevolência, ainda mais quando se identifica que estas doces palavras foram redigidas a partir de um conhecido estereótipo, o da "luta", ou melhor, o da "luta de classes" – afinal, é preciso que aconteça a "derrubada VIOLENTA da burguesia", porque a existência dela "não é mais compatível com a sociedade" (MARX, "Manifesto do Partido Comunista", 2002, pp. 56-57), não é Alcides? Quanta ternura... Sua postagem me faz lembrar uma máxima do Lênin, "acuse-os daquilo que você faz" – porém, não sei se ela é pertinente, Alcides, porque do alto da sua nobreza, depois de ter dito tudo isto, você se compadece, sente "pena" daqueles "monstros horríveis" que você, sem qualquer conhecimento, simplesmente rotula de "burgueses". Quanta benevolência e virtude...

Sobre a sua indignação a respeito do que postei sobre as "minorias" pergunto o seguinte: você já se questionou quem indica as "minorias"? Você já investigou quem as classifica, quem as isola, reivindica um "gueto" para elas? Quais critérios são utilizados? Os critérios que você apontou são de uma amplitude imensa – aplicados a Barbacena, como é a proposta de Dimas Ferreira, não têm qualquer efeito. Por exemplo, o critério "lingüístico", que você menciona: qual a diversidade lingüística na circunscrição da cidade? Há alguma característica fundamental, própria, natural, essencial, para estabelecer "distinções"? Porque não são as generalizações que você indicou, mas as particularidades que definem cada grupo, cada estereótipo - estes sim são "forjados" e "construídos", porque exigem uma narrativa histórica, freqüentemente artificial, para identificar os tipos associados a eles. Uma identidade não apenas supérflua, mas que fere o "princípio da igualdade", pois os tipos não são "diferenciados" por nenhum critério exterior, mas iguais por serem humanos. Resta lembrar que, medidas deste tipo violentam da mesma forma a liberdade individual, isto é a possibilidade de traçar, projetar seu futuro independente de qualquer "ancestralidade", vínculo ou laço que o identifique ou classifique em determinado grupo. Agora, quanto às conseqüências políticas deste "pseudo-multiculturalismo", elas estão delineadas no meu último comentário.

No que diz respeito à "imparcialidade" do texto de Dimas Ferreira, da minha parte não reivindiquei nenhuma. Sugiro, Alcides, que releia atentamente a introdução da minha postagem anterior, na qual esclareço que as minhas observações seriam baseadas "não apenas no texto de Dimas E. Ferreira, mas também nos comentários subseqüentes". Nestes últimos – nos "comentários subseqüentes" - algumas pessoas apontaram a "imparcialidade" do texto. A minha proposta foi mostrar que este diagnóstico está equivocado. Quanto às posições de Dimas Ferreira, mais uma vez ressalto: sustentá-las é um direito que a ele é garantido, embora sejam passíveis de crítica.

Por último, apenas uma correção. O homem é, sim, um "zoon politikon" (Aristóteles). No entanto, reconhecer este traço essencial do homem é completamente diferente de conceber a sociedade com uma realidade, uma concretude, e efetividade independente e acima dos homens concretos que dela fazem parte – nos termos em que você colocou, Alcides, o "homem" e as "ideologias" fazem "PARTE da sociedade". No entanto, "sociedade" é um "universal", uma abstração, quer dizer, é uma entidade que não existe em si mesma, mas somente nos entes que a corporifica, ou seja, nos homens mesmos. A "substância primeira" é o homem, o indivíduo concreto, vivente, com a capacidade de agir, repleto de sentimentos e paixões. Acontece que o seu discurso apresenta uma inversão fantástica: em um passe de mágica a "sociedade" foi promovida a substância primeira, real, concreta, agente, enquanto o indivíduo se tornou uma mera abstração. Interessante que, esta inversão é própria também de tendências socialistas-comunistas, cujos simpatizantes, ou partidários, discursam a partir de uma "abstração" – quer dizer, do alto de sua nobreza e virtude falam em nome da "sociedade", em nome do "povo". Porém, simpatizantes, militantes, partidários, candidatos, intelectuais, ou simplesmente "Polieznyi", talvez não tenham consciência da sua posição neste esquema, enquanto "indivíduos". Por isso, inebriados pelas alturas, pensam que não podem ser criticados, pois estão justificados a fazer qualquer coisa para realizar seus "elevados" projetos – por isso, sem autoconsciência, apontam nos outros, o que eles mesmos fazem.

Sem mais observações.

Bruno Braga.

http://dershatten.blogspot.com

Barbacena, 17 de Fevereiro de 2011.

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II. Bruno Braga – Comentário sobre o texto de Dimas Soares Ferreira, "Uma revolução no rumo da democracia" [http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=5598&inf=100].


 

Caro Dimas,

É preciso observar que não há "Revolução popular", "levante em massa", nem no Egito nem em qualquer outro lugar. Isto pelo simples fato de que o cidadão comum não decide espontaneamente sair da sua casa para ocupar a praça pública e protestar contra o que quer que seja. Para realizar este tipo de manifestação é necessário uma "organização" mínima, como por exemplo: data; horário; local; definição dos pontos de crítica e das reivindicações; destino da marcha; etc. A "organização" é articulada por um "grupo", ou, por um "partido". Portanto, a "revolução" é resultado da ação de um grupo extremamente organizado. Esta é uma orientação básica em qualquer estratégia subversiva, sobretudo naqueles de orientação marxista-leninista (Cf. Yuri Bezmenov, embaixador da extinta União Soviética na Índia, sobre os mecanismos de atuação da KGB – "Conversation with G. Edward Griffin").

No Egito a mesma estratégia descrita foi utilizada. É possível verificá-la através de um simples exemplo: um folheto distribuído para o público intitulado "Como protestar de formar inteligente" (Cf. http://colunas.epoca.globo.com/ofiltro/2011/01/28/o-manual-dos-manifestantes-do-egito/). Este folheto certamente não foi elaborado, impresso, e distribuído de maneira espontânea por um "João", quer dizer, por um "Mohamed", qualquer. Talvez não tenha sido a autora deste "manual", mas a protagonista das manifestações no Egito é a "Irmandade Muçulmana". Ocorre que esta organização não só tem uma origem obscura (Cf. Jim Marrs; Peter Levenda, que menciona até uma colaboração com o Nazismo) e um histórico de ações violentas, como mantém ligações estreitas com grupos terroristas, inclusive com o Hamas (citado no texto como se estivesse absolutamente dissociado daquela organização). Sendo assim, se Irmandade Muçulmana apresenta ao público a sua face "higienizada", é impossível estabelecer, recorrendo ao seu histórico, às suas ações e articulações recentes, que seja a única, como indica a dissertação.

Agora, no que diz respeito à "democracia" – uma imaginária democracia "como os povos árabes a pensam" – e a expectativa de um "estado laico", "separando de uma vez por todas a política da religião" (citações do texto), é algo completamente disparatado dentro do Islamismo. Porque nele política e religião estão articulados já na sua raiz - no Corão – e sob uma orientação fundamental, a instauração do "Califado Universal". Nestes termos, por trás da aparente "democracia" de alguns países orientados pelo islã, o governo está subordinado à autoridade religiosa – exemplo disso é o que acontece no Irã, onde uma "aparente" democracia no processo eleitoral oculta a subordinação do poder civil e político à autoridade religiosa: basta verificar a relação entre Marmud Ahmadinejad e Ali Khamenei.

Em um país fundado no Islã, o Corão é a lei – não há distinção entre "lei civil" e "lei religiosa". Obviamente o Corão não contém todas as diretrizes; então, cabe à comunidade dos teólogos ("Umma") a interpretação do livro e o estabelecimento das orientações. Agora, Dimas, que espécie de Democracia é esta? Que Estado laico poderia ser constituído sobre estes fundamentos? Como é possível estabelecer uma separação entre política e religião se na própria raiz do poder islâmico elas são indissociáveis?

Enfim, falar em "revolução popular", "mundo mais fraterno, humano, socialmente justo", "democracia", "estado laico" – e, além disso, na "emancipação da mulher do jugo machista" – neste caso específico, é analisar os fatos e eventos, ou sob intenções panfletárias e propagandísticas, ou simplesmente examiná-los com palavras imantadas, quer dizer, fundadas apenas no "sentimento", na "paixão". O perigo de uma opção que "não passa necessariamente pela razão" é adotar a as paixões como único critério de verdade de suas crenças, e então ser estimulado a transformar o mundo na imagem e semelhança de uma obscuridade interior.

Grande abraço.

Bruno Braga.

Barbacena 28 de Fevereiro de 2011.