Thursday, February 10, 2011

Nos bastidores da realidade efetiva.


Bruno Braga.

 
"É porque então eu era louco que hoje sou sensato. Oh filósofo, que não vês nada além do instantâneo, como é estreita tua visão! Teu olho não está feito para seguir o trabalho subterrâneo das paixões", Goethe, 848. In STHENDAL, 2002, "O Vermelho e o Negro", p. 237.

 
Os esquemas que permitem a compreensão da realidade estão em camadas abaixo – ou detrás – à dos eventos, dos fatos concretos. Para que estes esquemas sejam trazidos para o primeiro plano é necessário desvelar, escavar, os eventos organizados, orientados e arquitetados por eles: trabalho que é da máxima importância, porque são estes mesmos esquemas os fornecedores do sentido, do significado, dos eventos do mundo concreto, tornando-os inteligíveis, compreensíveis, em um plano unificado. Nestes termos, qualquer tentativa de entender a realidade, quer dizer, um fato, um evento – e até um comportamento, uma ação - baseada apenas no exame superficial da ocorrência, é sem conteúdo, fundada apenas na aparência, no belo discurso, na retórica. Acontece que este método tem sido amplamente utilizado para explicar, não apenas o comportamento, as idéias e os sentimentos individuais, mas também manifestações políticas e sociais. No que diz respeito a estes últimos, os analistas de tais eventos, quando não têm a intenção de fraudar, por ingenuidade se fixam apenas no que aparece diante dos seus olhos, sem se atentarem para o que ocorre nos "bastidores", ou no "subterrâneo". Porém, é destas instâncias que emana o combustível que mobiliza as camadas visíveis da realidade. É na obscuridade onde são tomadas as decisões, onde é planejado e ensaiado o espetáculo assistido por todos, um evento previamente concebido. Por isso, a precariedade da luz na ilustração do subterrâneo não significa falta de consciência nas decisões – pelo contrário, na maioria dos casos as resoluções são muito bem arquitetadas, como verdadeiras obras de engenharia. Pois são estes planos, ou melhor, estes esquemas, que precisam ser revelados, para que seja possível compreender a unidade das ações, dos fatos, eventos, o sentido e o significado deles, no esforço de prever, sobretudo, as suas conseqüências.

 

 
(*) Nota. Estas considerações teóricas podem ser remetidas aos exemplos práticos descritos nos textos: "Um teólogo militante sob suspeita" e "A autovitimização de um frade dominicano" - publicados em 26 de Outubro de 2010 e 21 de Janeiro de 2011, respectivamente.